Foto: Rian Lacerda (Diário)
A demora na reconstrução de pontes e na manutenção das estradas no distrito de Arroio Grande, duramente atingido pelas enchentes de maio de 2024 e de 2025, motivou um protesto da comunidade de Três Barras. Sem a garantia plena de ir e vir, os moradores relatam prejuízos financeiros na agricultura e dificuldades diárias de mobilidade. A prefeitura de Santa Maria reconhece os problemas, mas argumenta que o início das obras maiores depende da liberação final de recursos por parte do governo federal.
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O quarto distrito de Santa Maria concentra produção de hortaliças e de fumo, além da criação de gado. A região também é conhecida pelos balneários Ouro Verde e Zimermann, localizados em Três Barras, e é um dos caminhos para Santa Maria e Silveira Martins, na Quarta Colônia. De acordo com a última atualização da prefeitura, quase 3 mil habitantes residem no local.
Nos últimos anos, o distrito vem enfrentando eventos climáticos extremos, que têm provocado problemas de infraestrutura, logística, produção e até no turismo. Pontes, passagens e até o visual da região foram afetados pelas enchentes registradas em maio de 2024, junho de 2025 e, mais recentemente, em dezembro do ano passado. São três episódios de chuva que, mesmo com volumes menores em relação ao primeiro evento, resultaram em impactos acumulados em diversos pontos de Arroio Grande.
A preocupação dos produtores rurais é com a expectativa de volumes elevados de chuva nos meses de maio e junho. A agricultora Daniele Fernandes, 49 anos, relata que as passagens molhadas, construídas de forma provisória, não suportam a elevação do nível da água, o que compromete o escoamento da produção e inunda as lavouras.
– As chuvas estão chegando, e nada de resolver o problema. O rio sai para fora e atinge nossa lavoura. Em maio de 2024, e depois em 2025, perdemos tudo, não sobrou um pé de alface. A gente precisa urgente do desassoreamento dos rios, porque qualquer volume maior já leva os aterros – detalha a produtora.
Os danos no campo acumulam prejuízos elevados. O agricultor Odacir Eugênio San Martin, 75 anos, reside no local há sete décadas e estima um prejuízo de cerca de R$ 200 mil nas últimas duas cheias. Ele afirma ter oferecido material próprio para auxiliar no calçamento da estrada, mas relata entraves.
– Já foram feitas diversas reuniões aqui, e ninguém faz nada. Eu ofereci pedra da minha propriedade, uma pedra boa que dá para empedrar a estrada. É só a prefeitura vir buscar, mas dizem que a Fepam impede. A ideia é abandonar nossa residência, estamos apavorados com a previsão de chuva agora no inverno – afirma o agricultor.
Impacto na rotina
A falta de manutenção afeta o deslocamento diário de quem trabalha na área urbana. Quem deixa o asfalto, antes de chegar à sede do distrito pela ERS-511, dobra à direita e logo visualiza uma placa pedindo melhorias na estrada. A partir do primeiro contato com a estrada Pedro Mathias Fernandes, de chão batido, já é possível desviar de vários buracos ao longo do trecho. Em alguns pontos, não há como evitar. Em outros, moradores colocaram grama cortada para tentar reduzir os danos.
Na Estrada Municipal de Três Barras, o problema persiste, com diversos buracos. Em uma ponte, a menos de 1 km após a entrada da estrada dos Fernandes, a força da água levou a cabeceira, formando um novo leito do rio, agora mais largo. Com isso, restou apenas a estrutura da ponte. Um trabalho realizado pela prefeitura formou um barranco longo para dar acesso, deixando a ponte mais alta em relação ao terreno levado pela enchente.
Devido ao acesso elevado, o ônibus de linha que transporta moradores para Santa Maria não consegue mais passar, já que a parte traseira do veículo encosta na subida íngreme.
Sem ônibus e morando a quase 3 km do ponto até onde o coletivo chega, a professora municipal Ione Terezinha de Cristo Pozzobon, 64 anos, relata dificuldades. Antes, ela pegava o transporte a menos de 1 km de casa. Agora, precisa enfrentar obstáculos para chegar ao embarque três vezes por semana.
– O meu maior problema é o acesso. Eu passo pelo rio, pela água. Quando chove um pouco, já não passa nada, fico isolada. Como a linha de ônibus não desce até aqui por causa das condições da ponte, eu tenho que andar em torno de três quilômetros para chegar à parada – relata a professora.
A mobilidade se torna um desafio ainda maior para pessoas que utilizam cadeira de rodas. O ex-motorista Vanderlei Scremin, 68 anos, cobra estradas niveladas e pontes seguras.
O advogado Patrick Maier, representante dos moradores de Três Barras, cobra a ida de técnicos ao local para esclarecer as intervenções previstas. Ele questiona a adequação das plantas estruturais elaboradas pelo município à realidade do curso da água.
– O projeto da prefeitura para a ponte dos Bona é de 30 metros, mas nós temos um estrago de mais de 100 metros de estrada. Quando o rio subir, vai levar a cabeceira de novo? Precisamos que o secretário e a empresa contratada venham até aqui para explicar as soluções, para que a gente possa participar com a nossa experiência de convivência com esse rio – pontua o advogado.
Além dos pontos citados pelos moradores, o cenário dentro de propriedades rurais também é de preocupação. Muito frequentados por veranistas, os dois balneários do distrito tiveram a rotina alterada após a primeira enchente. Um deles perdeu boa parte das churrasqueiras, área de lazer dos banhistas, além de ter o local de banho completamente modificado, que antes era menor e agora apresenta trechos com mais de 70 metros de extensão, tomados por pedras, bancos de areia e vegetação.
O que diz a prefeitura sobre as obras
O secretário de Infraestrutura e Mobilidade de Santa Maria, Wagner da Rosa, conversou ao vivo sobre a situação dos moradores durante o programa Bom Dia, Cidade!, da Rádio CDN (93,5 FM). Ele reconhece que Arroio Grande foi o distrito mais impactado pelas chuvas, mas ressalta que o município realiza manutenção periódica dentro de um sistema de rodízio.
Segundo ele, as máquinas estariam na região nesta semana, mas o cronograma precisou ser ajustado devido às condições climáticas, que impedem os trabalhos. Nenhuma máquina da prefeitura de Santa Maria estava presente nos pontos visitados pela reportagem em Três Barras. Apesar disso, a prefeitura de Itaara utilizava uma retroescavadeira para arrumar uma passagem molhada no arroio da divisa, onde havia uma ponte de concreto destruída pela enchente.
Rosa explica que a cidade não possui mais os recursos de financiamentos do passado e que as equipes atuam em sistema de rodízio para atender os nove distritos e mais de 2 mil quilômetros de estradas de chão. Ele destaca ainda que o secretário de Desenvolvimento Rural, Marcelo Dalla Corte, vistoriou a região na última semana para mapear os danos, mas o envio das máquinas, previsto para o início desta semana, depende de tempo seco.
– A gente não pode ir lá fazer uma manutenção sabendo que vai chover. No momento que se mexe com terra, por mais que empedre, se chover, vira mais barro – justifica Wagner.
O desgaste acelerado das vias também tem relação direta com a economia local. O secretário aponta que o período de "escoamento da safra" agrava a situação da infraestrutura.
– O trânsito de caminhões e veículos pesados é bem mais frequente. A gente sabe que, na região, não temos balança para controlar o peso. O pessoal aproveita para carregar além do permitido, colocam mais uma barra na lateral da caçamba para suportar mais produtos. A gente sabe de tudo isso e está acompanhando, mas não consegue ficar 24 horas no mesmo local – argumenta.
Durante a entrevista, moradores que acompanhavam pelo rádio ficaram atentos às declarações do secretário. O espanto foi em relação à fala sobre veículos pesados utilizando a estrada durante o escoamento. Segundo os moradores, a localidade não possui tráfego desse tipo de caminhão, já que, para transportar hortaliças, que é a principal produção do distrito, não há necessidade de veículos de grande porte.
Sobre a reconstrução das pontes, o secretário relembra que a destruição na área foi severa a ponto de a prefeitura utilizar drones do Centro Integrado de Operações de Segurança Pública (Ciosp) para dimensionar os estragos, pois não havia acesso por terra. Segundo ele, os projetos de mais de 20 pontes em Santa Maria estão prontos e com empresas já licitadas, dependendo exclusivamente de Brasília.
– A obra das pontes só não começou ainda porque temos uma dificuldade de agenda com o governo federal, que precisa estar junto para darmos o início. Foi o primeiro projeto protocolado e aprovado. A licitação está feita, e a empresa, contratada. Estamos aguardando apenas o “ok” final e a liberação do governo federal para começar – conclui o secretário, que se coloca à disposição para receber uma comissão de moradores em seu gabinete.